quarta-feira, 4 de novembro de 2009


Os dias foram passando ao som do rio, tantas vezes forte, violento e levando em suas correntezas o forte sabor das paixões. Mas às vezes rasos, quando podia atravessá-los de uma margem a outra, margens dos dias...
Numa troca de olhares, poderia descobrir cada pedaço do teu corpo que se espantaria ao toque dos meus dedos. Poderia compor uma música e tatuar cada acorde, rupturas do silêncio.
No último dia, vesti-me de negro. Dizem que é elegante, charmoso e sensual.
Não tive coragem para nada, porque é sempre assim. Sempre nos falta a coragem na hora certa e depois vamos para o papel contar as proezas do que poderia ter sido o que nunca foi, ou do que nunca será. Mas minha vontade era bebê-lo em excesso. Comê-lo em excesso. E acordar no dia seguinte com uma puta dor de cabeça. Mas como diz um amigo meu, Luiz, em frase que li no seu blog ontem à noite, "Cada segundo aproxima você de uma despedida não desejada".
Ele desceu a ladeira, eu subi. Olhei para trás várias vezes, ele não me olhava. Fiquei ali pedindo ao tempo que passasse rápido e o fizesse dobrar a esquina para sempre. Não adiantou.
Todos os dias essa imagem, lembrança exaustiva, me visita, me acompanha, atordoa. Eu olho para trás e o vejo caminhar, despedindo-se com passos lentos sem também ousar acenar-me um adeus ou conferir se pelo menos, eu estava lá, lá em cima, olhando para ele. Nada.
Frio, descia a rua, a sorrir com outras pessoas. Eu também sorria, pois não há nada mais falso que sorrisos. É como o bote de uma cobra. Não o bebi em excesso. Não o comi em excesso. Mas a indigestão, tá braba.

sábado, 31 de outubro de 2009

Ser forte como os nós cegos... (?)
Tanta coisa pra ser na vida... eu eu ainda tenho que ser isso...

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Por onde andei

Atravessei o Mojave, rastejando-me como uma cobra.
Às vezes cresciam-me os pés de um beduíno. Só os pés. Por outras horas, o lombo de um camelo. Lembro-me de um momento que eu tinha os pêlos sujos e com cheiro desagradável, velho urso sem esperanças. Quando eu o avistei, ele estava acompanhado, mas não lhe segurava as mãos. E eu me aproximei devagar e rastejei diante dele todo o meu corpo esguio. Ela nada me dizia, só olhava. Não dei o bote, ela me deu. Morri com uma pedrada na cabeça e renasci 50 kilômetros depois, como uma rapariga moribunda. Ele já estava sem ela, que não suportou o árido caminho. A lua branca, no céu. Ela no céu. Eu e ele no deserto. Quando tocou-me as vestes, seu corpo sedento de sexo. Meu corpo sedento de vida. Já não era mais a linda mulher suja, nem urso, nem camelo, nada. Enrosquei-me nele. E ele seguiu caminhando com uma cobra tatuada na perna. No deserto. Comigo. Tanto sol e tanto sal, em mim nada floresce. Não há primavera no deserto, sou solo estéril.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Onde moram as flores

Todos os dias. Sim, todos os dias. Pela manhã. Nos pêlos da manhã.
Ela abria a porta para a montanha, mas o mar invadia sua cidade.
E ela tentava segurá-lo com as mãos. Mas ele era maior, mais impetuoso e eu diria, até violento.
Ela contou-me essa história sentada numa cadeira de balanço já sem movimento.
Sem balanço. Sem o vai e vem das onze horas.
Dálias nasciam na beira da cerca. Um abacateiro em flor. Primaveras nunca são iguais, mas sempre trazem flores.
Elas moram lá, numa estação qualquer perdida no tempo da saudade. Pode haver primavera em pleno verão, me disse Teca.
E eu segurei as suas mãos e a fiz florir.

domingo, 19 de julho de 2009

Volto a escrever deposi de alguns dias. Depois de ter me tornado uma linda balzaca. Eis que pego um dos livros de Nietzsche para ler, Assim falava Zaratustra. E de pronto: " Quando chegou aos 30 anos Zaratustra deixou sua pátria e o lago de sua terra natal e partiu para as montanhas..." Geralmente decido se continuo um livro ou não pelas frases iniciais e finais. Esse me abocanhou!

sábado, 27 de junho de 2009

Why?

"Why, why, tell 'me that it's human nature...", a voz de Michael Jackson vibra no meu DVD.
Ouvi essa música hoje. Exatamente 15 vezes e meia.
E no chão da sala pensei em como as pessoas podem ser más. Não vou entrar em explicações, quero apenas escrever. Um homem enclausurado no seu próprio desespero.
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Ela tentou beijá-lo na despedida, em vão. Pediu-lhe um abraço, em vão.
Ele mandou ela descer do carro, estava com pressa. Ela saiu caminhando na ladeira deserta, sombria, sem abraço. E com o beijo que não conseguiu dar preso nos lábios.
Ele arrastou o carro para nunca mais vê-la. Ela não sabia que aquele era o último encontro.
No seu tolo romantismo, acreditava que o último encontro deveria ser uma grande despedida. Esqueceu que homens brancos e de olhos verdes mentem. Na verdade, nunca viu uma pele branca tão quente como a dele. Um olhar erótico. Um sorriso que era um estupro.
Perdida no meio dos pensamentos, a natureza humana tão escrota.
Why?Why? Teria se perguntado. Se a resposta não fosse o eco da pergunta.

sábado, 6 de junho de 2009

Veio devagarinho, com a mão cheia de estrelas. Uma lhe escapou por entre os dedos e grudou nas costas, ligeira, astuta, com urgência em fazer parte de uma outra constelação desse desconhecido Universo. As cinco pontas poderiam desfazer-se em desenhos geométricos de muitos traços, se chovesse. Em dia de sol, era círculo com um ponto no centro. Nos outros dias era apenas uma estrela, tão somente solitária, emitia luz sim, a depender do estado de espírito. E caso lhe fosse dado escolher uma estação do ano, ficaria com o outono e o doce sabor das frutas tropicais.

Mas não vamos falar da estrela, ora. E sim, de quem a carrega. Tem quem a leva na testa. Na bunda. No pé. Na nuca. Enfim, ele a levava nas costas e isso o bastava. E ele veio devagarinho, mas perto de mim, tinha nas mãos apenas poeira, metade da linha do Equador, um meridiano de Greenwich. Não sabe ele da minha ternura. Não sei eu das suas estapafúrdias esquisitices. Mas o quero como a um gomo de tangerina, numa tarde na fazenda. O último gomo, tão cheio de traços, veias, desenhos, tão espremido entre os lábios a derramar o sabor da fruta colhida no pé. Eu o quero.